De Braga a Santiago


Foram e são 10 dias intensos. São porque ficam marcados bem fundo na nossa mente, sabemos bem que são memórias daquelas que vêm com um selo "Validade: Vitalícia".
Começamos em Braga, na porta de casa de cada um porque o Caminho começa aí mesmo, na porta da tua casa e da minha, acredita que não te perdes... e se te perderes, é só mais um motivo para te encontrares verdadeiramente no Caminho.


Fizemos as seguintes etapas em 10 dias consecutivos:

  • Braga - Goães (19,1 km)
  • Goães - Ponte de Lima (13,8 km)
  • Ponte de Lima - Rubiães (18,8 km)
  • Rubiães - Valença (17,6 km)
  • Valença - O Porriño (16,4 km)
  • O Porriño - Redondela (14,5 km)
  • Redondela - Pontevedra (18,5 km)
  • Pontevedra - Caldas de Reis (21 km)
  • Caldas de Reis - Padrón (16,3 km)
  • Padrón - Santiago de Compostela (19,9 km)


Dia 1. Braga - Goães

Passando pela Sé de Braga, sem carimbar as credenciais porque estava fechada às 7 da manhã, seguimos em direção à Vila de Prado pela estrada nacional que desce da cidade até ao rio Cávado. Depois de um pequeno almoço pouco sólido (que já erro pela segunda vez porque insisti no mesmo local dois anos consecutivos) seguimos em direção a Goães.

Cruzando a estrada nacional Braga - Ponte de Lima vezes sem conta, maioritariamente por caminhos paralelos a esta e muito raramente pela berma da nacional, fomos vendo riachos, prados, gado e muitos cães que não devem deixar que vos acompanhem com o risco de se afastarem demasiado de casa e se perderem.

As marcas do Caminho começam a ser evidentes, cruzeiros com a vieira e a cruz de Santiago, setas pintadas ou mesmo em azulejo para nos guiar, casas com dísticos de Santiago entre outras coisas que nos levavam a pensar ansiosamente no destino final sempre com a beleza do Caminho que percorríamos nos nossos olhos.

São bastantes curvas até Goães, o caminho neste dia alonga-se por quase 20km, geralmente plano até aos últimos onde algumas subidas nos desmotivam mas chegando ao albergue sente-se a paz deste local.

O albergue é uma antiga escola primária, simples com várias camas, cobertores, uma cozinha equipada e água quente, cobra um donativo de 5€ por pessoa.

Nesta freguesia existe apenas um café que serve refeições, levamos no primeiro dia massas instantâneas e alguns snacks. Mais à frente, a cerca de 3km, no Caminho, tem um mercado bastante completo.


Dia 2. Goães - Ponte de Lima

Se há dias em que não me custa acordar é quando estou a fazer o Caminho.

Acordo sempre bem cedo, 6/7 da manhã é hora de sair para evitar as horas de maior calor.

Sacos cama arrumados, roupa na mochila, albergue limpo como o encontramos e partimos depois de carimbar as credenciais de peregrino.

Hoje é mais curto, a paragem em Goães era aquela que cortava caso estivesse apertado em relação ao tempo mas não me arrependo e fazia igual, ao sair desta freguesia, de manhã, é bem visível a beleza deste local. O pequeno almoço foi bem melhor hoje no café da freguesia e está tudo pronto para sair em direção a Ponte de Lima.

Os primeiros quilómetros ficaram marcados por um ladrar mais agressivo de um cão perto do mercado em Ribeira do Neiva... ultrapassado inteiro e sem mais incidentes a relatar, ele ficou na vida dele e eu lá segui na minha.

Esta etapa é a que mais estrada nacional tem, é bastante movimentada com camiões a passar constantemente, caminhem com cuidado! No final segue pelo interior dos campos de golfe do Axis Hotel e quem quiser pode ficar por aqui mas até Ponte de Lima é só descer e a descer... todos os santos ajudam.

Em Ponte de Lima, com o albergue público fechado devido a uma pandemia "made in China" fiquei e fiquei muito bem na Mercearia da Vila.

Este hotel foi feito no local onde era a mercearia da vila, na receção e na sala do pequeno-almoço mantém muitos objetos do tempo em que ainda era mercearia, gerida pelos pais do agora gerente do hotel. Os quartos são os antigos quartos da família e curiosamente fiquei no quarto onde nasceu o gerente do hotel.

Quartos fantásticos, a recepcionista Eva é espetacular, uma animação constante.

Aproveitar o hotel para descansar, não é o alojamento mais "peregrino" mas não me queixo.


Dia 3. Ponte de Lima - Rubiães

A manhã do dia mais assustador para os peregrinos, vem aí o dia da Labruja.

O dia começou com o pequeno almoço fantástico que estava incluído no preço do quarto, a animação da Eva logo pela manhã foi fundamental para enfrentar o dia que estava pela frente.

Foi neste pequeno almoço que conhecemos o Rui.

Aqui, numa primeira impressão, o Rui pareceu-nos uma pessoa que estava a fazer o caminho nas calmas, tendo já feito como carro de apoio à mulher decidiu agora fazer ele sozinho mas mais à frente vamos ver que não é bem assim ahah.

Depois da conversa animada, de conhecermos o Rui que ficou para um pequeno almoço mais relaxado, de enchermos as garrafas e armazenado metade da mesa nas nossas mochilas porque a Eva mandou, lá fomos nós atravessar a ponte para Norte em direção a Rubiães que fica logo depois das subidas íngremes da Labruja.

É neste dia e só neste dia que começamos a sentir o caminho, que surge o primeiro "Bom Caminho" tanto em português como com toques suaves de outras línguas que lhe dão um sabor especial como é o caso do "Buen Camino" ou o "Bon Caminu" entre outras variantes que significam todas o mesmo "espero que chegues lá, e se precisares de algo, diz me, estamos todos juntos no mesmo caminho e no mesmo destino". Impressionante como duas palavras podem significar tanto.

O caminho segue perto do rio Lima nos primeiros quilómetros, e já são visíveis vários peregrinos que vamos conhecendo perguntando de onde vêm, até onde vão, se estão bem, se precisam de algo até que se criam laços alguns dos quais levamos desta etapa até à praça do Obradoiro, em frente à Catedral de Santiago de Compostela.

É o caso da Zélia e do Miguel que caminharam connosco até Santiago, com alguns espaçamentos maiores em algumas partes, já que traziam bolhas desde a sua primeira etapa, no Porto, mas sempre em contacto até ao destino, Santiago. Sendo o Miguel fuzileiro aposentado e antigo chefe de Escoteiros rapidamente me identifiquei e mantive uma conversa muito boa que vinha a durar vários quilómetros.

Fui servindo de guia, sendo dos poucos naquele dia que já tinha feito o caminho, e também servi de apaziguador de ansiedade pela montanha que tínhamos pela frente já que não é de todo o bicho de sete cabeças que a pintam.

Depois de um lanche no viveiro de trutas que tem a par do caminho, de comprar a nossa vieira e de passar a ponte da autoestrada, começam as subidas.


TBC...

[CONTINUA]